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A música trans negra que desafia o Brasil conservador


Quando você mora em um país cujo presidente chegou a dizer que preferia que seu filho “morresse em um acidente” a ser gay, não hesita em trazer à tona sua misoginia e coleciona comentários racistas, ser uma mulher trans negra transforma sua voz e seu corpo em um meio de expressão político, tanto no espaço privado como no público. Linn da Quebrada (São Paulo, 1990) e Jup do Bairro (São Paulo, 1993), duas mulheres trans que estão nadando contra a corrente da indústria musical brasileira, conhecem esse desafio e trabalham há anos para romper esse discurso do ódio.


Jup do Bairro, em seu álbum de estreia Corpo sem Juízo (Autoproduzido, 2020), nos convida a refletir sobre diversidade e limites físicos autoimpostos. Neste trabalho, a artista brasileira usa seu corpo, o de “travesti gorda, bixa, negra e periférica”, como ela própria se define, e o coloca no centro de uma batalha social contra os cânones corporais, estéticos e de gênero em um país no qual as minorias, e especificamente o coletivo LGTBIQ+.


Igualmente contundentes são os temas de Linn da Quebrada: “Me arrumei tanto pra ser aplaudida mas até agora só deram risada”, diz em A Lenda. Uma letra que faz parte de seu primeiro disco, Pajubá (Vinyl, 2017), e na qual ataca um “eles” que parece ser um reflexo do poder político, mas também dos executivos da indústria musical que por anos a mantiveram à margem. Porque, embora a música brasileira tenha raízes na cultura negra, os músicos de maior renda ainda são principalmente brancos e cisgênero.


Crucial em todo esse processo foi a produção dos álbuns de ambas por Badsista. Esta jovem DJ e produtora é responsável por promover novas narrativas na indústria musical e acolher artistas que permanecem fora do circuito comercial. Em 2016 fundou o coletivo Bandida, uma iniciativa trans feminista que busca dar voz a outras mulheres do cenário musical brasileiro, principalmente artistas negras, queer e das classes pobres. 


E aí, a partir da resistência, é como transformaram a luta por sua identidade pessoal em uma revolução coletiva e política. 


Fonte: RAQUEL ELICES (El Pais)

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